
Um dia. Me desculpe, se estas não são palavras esperançosas lhe desejando um ano novo maravilhoso. Eu estou cansada dessa merda. De as pessoas acharem que o fato de se juntarem por um momento em comum, dividindo seus fardos ao meio e entornando suas esperanças em copos cheios, possa realmente significar algo mais que um ensaio. Um grande espetáculo montado pelos relógios e calendários errados.
Eu me cansei desses limites. Cansei do relógio que come meus minutos e meus segundos de paz, que vomita meus momentos de obrigação e regurgita meus momentâneos minutos de felicidade. Me dando nada mais que dias, meros dias, nos quais a metade deles passo inconsciente. Ah, eu amo a inconsciência! Tão sincera. Tão interna. Longe dessas manifestações festivas de alivio em manada.
Não existe um novo ano, ou um novo dia. Não há tempo, e promessa alguma poderá ser feita ou cumprida. Há só um contrato, e ele expira hoje. O tal amanhã, não existe. Estamos vivendo o mesmo dia desde sempre. Nada mais que um dia. Como um inseto, é só o tempo que temos. Não há nada para comemorar em nossa ignorância. Nem passagem literal de tempo algum.
Não digo que ignoro a majestade do Sol, pondo-se e erguendo-se no horizonte, ou as fases da Lua em sua lúgubre beleza. Mas não posso compor a mesa daqueles que concordam que mais um ano acaba, que mais um ano começa. Nada passou, e o tempo realmente não se deixa controlar por nossos sentimentos egoístas, aquele que viveu mais que um dia em toda a sua vida há de morrer cansado. Pois há só um dia, e este dia é hoje. Agora.
Não concordo com essa ínfima demonstração de caráter momentâneo, como se solidariedade fosse uma atitude obrigatório nos supostos finais de ano. Nem com essa desesperança ferrenha de quem se arrepende e se alegra pelo que fez e passou, as coisas que conquistou. Não existe, não aconteceu, todas as marcas em mim são apenas eu. Há o passado, claro, devo aferir, o que fiz a um minuto atrás por exemplo. As primeiras palavras deste parágrafo. E só.
Quero dizer-lhes que o tempo não passa disso. Não dura mais que um momento de respiração. Mais do que uma batida do coração. É o único momento que você tem, o único controle que terá sobre o tempo. Esse único momento. Então não me venham com suas promessas baratas e seus desejos de felicidade. Não se prometa nada. Não se arrependa de nada. Não me deseja nada. Faça, pelo amor de Deus! Seja. Viva. Esse ano, esse mês, e esses dias que virão, são apenas um. São apenas Hoje. E sempre serão. Se assim não for, então guarde suas promessas, seus papeis rabiscados com objetivos, suas vontades aprisionadas em suspiros, seus beijos, suas lingeries de cores réveillon, suas roupas novas. Guarde-as. Pois daqui à um dia, dure ele o quanto durar, você precisará deles novamente quando mais um suposto ano hipócrita começar.
Tami Martins [some porque tem uma vida, e etc.]